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Uma foto, muitas texturas: Um olhar sobre a epidemia do Zika Vírus

24.03.2020

Soraya Fleischer

antropóloga e professora da Universidade de Brasília

soraya@unb.br

 

 

 Crédito da foto: Amanda Antunes

 

 

O que é uma textura? O que uma textura pode nos contar? Há diferentes texturas que encontramos no cotidiano. Textura da tinta na parede, formando riscos, frisos, linhas. Textura do tecido da roupa, canelada, esburacada, aveludada. Textura do prato de comida, fosco, liso, brilhante, arranhado. 


E uma foto pode ter texturas? 


Era uma foto de uma terça-feira na hora do almoço na periferia do Recife. Uma mãe empurrava o carrinho de bebê, onde sua filhinha de quatro anos dormia tranquila. Como elas se autodenominam, essa era uma “mãe de micro” porque tem uma criança com microcefalia. Isto é, uma filha que nascera com a Síndrome Congênita do Vírus Zika. Mãe e filha iam acompanhadas de outra mulher, que carregava uma sacola com três latonas de leite em pó. Caminhavam e conversavam. Mas onde há texturas nessa foto?


Pernas. Pernas das mulheres que caminhavam. Seguiam compassadas, com sua cor negra, com clareza de por onde seguir, com panturrilhas que sempre trabalham muito. 
Rodas. Rodas do carrinho, rodas dos carros, rodas do caminhão. O carrinho da criança, os carros e táxis que se enfileiravam em engarrafamento, o caminhão de lixo. Este último recolhia lentamente o lixo. Os seguintes esperavam, sem muita paciência, na rua estreita. O primeiro seguia sem obstáculos, esgueirando-se na sarjeta da rua, mesmo a passos lentos ultrapassava os carros. 


Telhados. Aquela era uma descida de um dos tantos morros da cidade. Uma casa depois da outra. Casas pequenas, telhados contíguos. Havia um sobrepor de telhados, como num maço de cartas de baralho abertas sobre a mesa. Diferentes coberturas de vários bolos. Uma cobertura de brigadeiro, outra de beijinho, uma de toalha felpuda, outro de fondant lisinho. 


Postes. Havia os oficiais e os improvisados. Na vertical, contrastavam com os telhados, sempre ou quase sempre na horizontal. Formavam ângulos retos, postes e telhados; postes e calçadas; postes e os topos dos veículos. 


Prédios. Mas somente ao fundo. No primeiro plano, havia as pequenas e populares casinhas. No segundo plano, arranha-céus revestidos de pastilha, de cerâmica Brennand, de mármore de Carrara. Estavam longe, mas de tão impotentes e altivos, a vista ainda lhes alcançava. Todas essas texturas apontavam para lá. As pernas caminhavam nessa direção, as rodas giravam para frente, os telhados declinavam lhes encarando. Mas dificilmente o mundo dessa criança de micro passaria por aqueles prédios altivos, dificilmente, seus habitantes conheceriam seu sorriso bonito, sua vontade de crescer feliz e seus cachinhos presos com fita de cetim. 


Nuvens. Não, não havia a textura das nuvens. 
 

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