A Musa

24.03.2020

 

Soraya Fleischer
Antropóloga, professora da Universidade de Brasília
fleischer.soraya@gmail.com

 

 

 

 

 

Mãe de micro é a forma como decidiram se chamar as mulheres que tiveram crianças com a microcefalia, o principal sintoma da Síndrome Congênita do Vírus Zika. No Recife, uma das metrópoles mais atingidas pela epidemia, essas mulheres se encontram em vários lugares ao longo da semana. Quase não ficam em casa. Vão até consultas, terapias de fonoaudiologia, exames e, mais recentemente, creches e escolas. Nesses lugares todos, elas têm chance de se encontrar e ficar sabendo se a criança melhorou da tosse da semana passada para cá. Ou se a judicialização de um medicamento deu certo junto à Defensoria Pública. Ou se surgiu uma vaga na creche mais perto de casa. 

 

Mas esses são todos assuntos sobre as crianças. Ao encontrar outras mães de micro, também ficam sabendo de suas vidas particulares, como mulheres, esposas, vizinhas, filhas, noras. Acompanham a violência doméstica sofrida por uma delas e a subsequente separação difícil. Acolhem aquela que perdeu uma parenta com um grave AVC no mês anterior. Vibram quando o negócio de bolos caseiros da outra começou a dar lucro, depois de semanas de cursos e investimentos em ingredientes e utensílios de culinária.

 

Em meio aos encontros e conversas, há detalhes visíveis que dizem muito sobre essas mães e como se localizam dentro do grande caldo de informações sobre a epidemia do Vírus Zika. Embora visíveis, esses detalhes nem sempre são óbvios e por isso trago um exemplo eloquente desses detalhes significativos.

 

Era junho de 2019 e eu estava em Recife para mais uma temporada de pesquisa de campo. Acompanhava, naquele início da manhã, uma sessão de fisioterapia. Cerca de meia dúzia de crianças estava sobre o tatame central da grande sala, acompanhadas pelas mães e atendidas pelas terapeutas. Uma mãe chega alguns minutos atrasada, pede licença, entra empurrando o seu filho no carrinho. Vou chamá-la aqui de Olívia. Logo se encaminha a uma maca, onde deita o seu filho. Eu acho que estou tomando o seu espaço no tatame e faço menção de lhe dar o lugar, mas ela recusa. Explica que não consegue ficar acocorada no solo.

 

Assim que se acomodou ao lado da maca, recebeu dois elogios. Primeiro, uma outra mãe, ao meu lado no tatame, comentou que Olívia estava muito bonita naquela manhã. Reparou e elogiou seu vestido jeans ajustado, decotado e moderninho, o look composto com suas gigantes argolas douradas, a boca e as unhas pintadas de vermelho, o rímel nos cílios. Depois, uma das terapeutas comenta que se lembrou de Olívia durante o final de semana. Todas ficamos curiosas. A terapeuta estava no interior, visitando a família de seu namorado. Foram a um show e a cantora lhe recordou de Olívia. E anunciou, “Era a Musa”. Sim, todas aquelas mães de micro sabiam exatamente de quem se tratava, menos eu. A fisioterapeuta me explica, “A Musa é uma cantora de brega aqui da região. Todo mundo a conhece. Ela é maravilhosa e está com os cabelos vermelhos como os da Olívia”.

 

Olívia é uma mulher alta, negra e curvilínea. Preferir fazer os exercícios de pé em vez de sentar sobre o tatame me leva a pensar em sobrecarga dos joelhos e articulações, e suspeito de obesidade. O atraso para chegar naquela manhã me leva a pensar que mora longe, que enfrenta dificuldades com os meios de transporte disponíveis para cuidadoras de crianças cadeirantes. E cogito como está a sua rede de contatos e parcerias, que idealmente lhe garantiriam a inclusão nos programas de mobilidade para pessoas com deficiência, que oferecem mais conforto do que os ônibus da cidade. Mas o comentário da terapeuta, ao compará-la com a Musa, me levou a outra reflexão.

 

Olívia ri com a história da Musa. “Eu já tive de várias cores, agora tá vermelho. Mas química é cara de manter. Então, quando eu estou bem, o cabelo fica bem. Quando não, não dá para pintar tanto”. Estar bem se referia às contas bem equilibradas, com todas as despesas com seu filho cobertas e com alguma sobra de dinheiro que pudesse ser dedicada aos cuidados com seu próprio corpo. Estar bem também se referia à disposição para ter esses cuidados, quando lhe sobrava energia para olhar no espelho, passear no comércio, dar uma chegadinha na manicure. Envolvia o bem-estar financeiro, o bem-estar de tempo e agenda e o bem-estar proporcionado pela autoestima, a auto-dedicação.

 

Com esse pequeno e quase invisível detalhe da cor dos cabelos, Olivia estava me contando como não é fácil a rotina de cuidados de uma criança com deficiências. Ocupa grande parte do seu dia, de sua conta bancária e de sua energia vital. A apresentação pessoal, que ela exibia em sua rua, nos meios de transporte, nas terapias de reabilitação e nos grupos de mães de micro, comunicava muito do momento em que ela e seu filho se encontravam. Olívia também me lembrava que, embora não fosse um item de consumo barato, ela não estava fazendo uma opção somente pela vaidade individual, mas com desdobramentos para seu filho e sua família. Afinal, ela devia saber como a apresentabilidade de uma mulher negra era proporcional ao bom atendimento nos balcões da prefeitura que frequentava, reconhecendo as marcas do racismo institucional. Por conta disso tudo, a escolha da roupa, do brilho da bijuteria, do esmalte de unha, da cor da tintura não eram elementos menores nesse contexto de maternidade em tempos de Zika. Inclusive, considerando o tamanho do cansaço dessas mulheres, só de ter tempo e vontade de escolher coisas para si mesma já era um bom sinal.

 

Termino pensando que nos momentos em que sobrasse um pouco da renda, Olívia se apresentaria ao mundo de modo exuberante, com cabelo, figurino e maquiagem que realçassem tudo que ela tem de bonito. E que não necessariamente ela tivesse chegado atrasada. Talvez tivesse justamente precisado de mais alguns minutos no início daquele dia para se embelezar e sair confiante à rua com seu filho. Ser uma Musa era apostar no futuro do seu filho, no seu próprio futuro. E ter uma Musa por perto parecia fazer muito bem para todas essas outras mães de micro.

 

 

 

Histórias marcantes e intensas como a de Olívia nos foram contadas por jovens mulheres da Grande Recife/PE que estão, no momento, vivendo a maternidade de crianças com a Síndrome Congênita do Vírus Zika. Esse é um dos textos produzidos no âmbito do projeto de pesquisa: “Zika e microcefalia: Um estudo antropológico sobre os impactos dos diagnósticos e prognósticos das malformações fetais no cotidiano de mulheres e suas famílias no estado de Pernambuco”. O projeto de pesquisa vem acontecendo desde 2016, com visitas semestrais à capital pernambucana, e é coordenado pela professora Soraya Fleischer do Departamento de Antropologia/Universidade de Brasília e conta com o apoio do DAN, FINATEC, Pro-IC e do CNPq.

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