“Eu me senti uma universitária vindo para cá”

24.03.2020

Raquel Lustosa C. Alves
Antropóloga, mestranda da Universidade Federal de Pernambuco
lusraquel@gmail.com

 

 

 

 

Era uma quarta feira do dia 2 de outubro de 2019 e o sol cobria os prédios da Cidade Universitária de Recife, na UFPE, aonde preparávamos o evento “Mães contam suas histórias”. Camisas confeccionadas para a ocasião, uma mesa com o buffet recheada de gostosuras e outra mesa preenchida por buquês de flores e lembrancinhas (com pen drives e chocolates) embalavam o clima de recepção à cinco famílias que, ansiosamente, esperávamos pela chegada. No Centro de Educação da universidade, único prédio que conta uma estrutura acessível para pessoas com deficiência, conferíamos os equipamentos de som do auditório, comunicávamo-nos com as famílias via WhatsApp, ornamentávamos o espaço e testávamos o material audiovisual que seria reproduzido durante o evento.

 

Enquanto isso, do outro lado, em bairros não tão próximos da universidade, um batom era retocado, uma roupa era passada, um penteado era feito, um sapato era engraxado e um chapéu colocado na cabeça. Das maneiras mais diversas possíveis, um grande número de pessoas se preparava para compor algo que considero um dos maiores acontecimentos que a universidade presenciou. Cinco histórias foram contadas, transformadas em roteiros, produzidas e debatidas por cinco mulheres: Jaqueline Vieira, Susana Lima, Andréa Avelino, Crislene Feitosa e Marcione Rocha. Nos bastidores, na direção, na edição e também na produção estavam os membros da pesquisa “Etnografando Cuidados” coordenada pelo professor Parry Scott do Núcleo de Família, Gênero e Sexualidade (FAGES) da UFPE, desde 2016.

 

Estava marcado para às 18h, mas às 17h já víamos motoristas de aplicativos desembarcando as famílias. Mães, filhas e filhos, pais, tias, tios, irmãos e avós estavam demasiadamente elegantes: cabelos soltos, batom de cores fortes, salto alto, botinhas, casacos e um chapéu de cowboy somavam alguns dos looks da noite. Para a maioria dos familiares, era a primeira vez que colocavam os pés em uma universidade – episódio que seria mencionado e reforçado durante àquela noite por aquelas famílias – estavam admirados com o cenário do evento e se mostravam entusiasmados para prestigiar o resultado final do trabalho dessas mulheres. Olhos marejavam, respirações ofegavam, mãos tremiam, avós sorriam e famílias se orgulhavam.

 

Enquanto alguns de nós acertava o valor do Uber, ajudava a retirar a cadeira de rodas do porta-malas do carro, segurava a criança no colo e levava toda a família até o primeiro andar do prédio, outra parte, juntamente as cuidadoras, recebiam as famílias já no auditório, ajeitavam as crianças em colchões encostados em uma das laterais da sala – para que as mães pudessem ter uma folga no cuidado dessas crianças e voltar à atenção para o evento, e fotografavam o cenário. Depois do coquetel de abertura do evento, as famílias se acomodaram no auditório e o coordenador do programa de Pós-Graduação de Antropologia, o antropólogo Alex Vailati, iniciou o evento, ao lado das professoras Ana Cláudia Rodrigues e Conceição Lafayette. Depois a professora Luciana Lira e o professor Parry Scott, também antropólogos, foram apresentar o curso. Eles eram a dupla de idealizadores do curso de audiovisual promovido, como um dos resultados da pesquisa, durante ao longo de todo o ano de 2018 para um grupo de mulheres que tiveram filhos com a Síndrome Congênita do Zika Vírus (SCZV) nos últimos anos.

 

Em seguida, os seis vídeos resultantes do curso foram passados no telão. Ao final da projeção,  as cinco diretoras dos filmes foram convidadas ao palco. Elas compuseram a mesa, contaram um pouco sobre essa experiência e discutiram o conteúdo do material. Uma chuva de aplausos invadiu o auditório. Além dos familiares e da equipe de pesquisa, havia uma plateia diversa e bastante animada: representantes de  organizações não governamentais que vêm apoiando a causa, professoras, estudantes, pediatras, infectologistas, fisioterapeutas e jornalistas. A equipe entregou os buquês de flores junto a um abraço caloroso a cada uma das diretoras. Ninguém conseguia conter a emoção que preenchia tudo ali. 

 

De primeira, o microfone deslizou de mão em mão e ouvíamos rápidos agradecimentos acompanhados de “nunca falei para uma plateia assim” ou “estou nervosa”. Logo que uma delas começou a contar do roteiro de seu filme, do processo de produção e da importância daquele material e daquele evento, outras se encorajaram a fazer o mesmo, ora enfatizando os desafios que enfrentam diariamente nos cuidados com essas crianças, ora enfatizando a importância daqueles vídeos para terem controle sobre suas próprias histórias. Sobretudo, com os filmes, as suas perspectivas serão uma voz audível em um contexto que as histórias da epidemia do Zika tenderam a ser veiculadas pela perspectiva de jornalistas e pesquisadoras/es.

 

Para terminar, destacarei um trecho da fala de uma das participantes, Jaqueline, que contou emocionada sobre como aguardou ansiosa para que o dia do evento chegasse logo, agradeceu pela oportunidade de estar ali e de contar com a presença de tantas pessoas que lhe eram queridas. Seu depoimento, seguido do depoimento de outra integrante, Andréia Avelino, ilustra o clima que sentimos naquela noite na UFPE:

 

Estou muito feliz por feito e produzido esse vídeo, esse documentário, porque, como diz Andréia né, o mundo vai conhecer um pouquinho da nossa rotina, e que a gente acaba conhecendo pessoas que nos ajudam bastante. (...) Eu me senti uma universitária vindo pra cá, fazer curso, palestrar, eu botava no meu status que estava vindo pra cá, para Federal, olha que chique! Então, assim, a gente sente um pouco de autonomia, deixa de ser aquela mãe, a gente se sente mulher, porque às vezes a gente se rotula muito ‘só é mãe de Daniel, de Pérola, de Willian...’ E não, a gente é Marcione, a gente é Jaqueline, somos várias outras mães que precisam ser vistas na sociedade como uma mulher, uma mulher que precisa de apoios, de cuidados, de outras coisas que não só daquela criança e a gente não tem. Então, assim, que esses vídeos da gente possam, sim, ser divulgados e que a gente tenha outro [evento] desse, mas com as autoridades e com o poder público para que eles vejam que o que eles fazem não é um terço do que a gente precisa. Porque a gente precisa de muito.

 

Estar ali, contar, palestrar e discutir esse material eram ações significativas para cada protagonista dessa coleção de vídeos. Esse material representava uma forma de disseminar o próprio conhecimento sobre a experiência de ter uma criança com deficiência, por conta da epidemia Zika. Também poderia circular entre os serviços e instituições que atendem essas crianças e cuidadoras. Além do controle de suas histórias por meio das tecnologias audiovisuais, havia o controle de suas próprias narrativas em um ambiente em que elas não costumam aparecer como protagonistas, como debatedoras e como palestrantes. “Sentir-se uma universitária” era despir-se da invisibilidade e ocupar um espaço tão frequentemente negado a jovens mulheres, negras, periféricas e mães em um país tão desigual como o Brasil. Era sentir-se reconhecida e valorizada enquanto mulher e cidadã.

 

 

 

 

Para conhecer os filmes do projeto "Mulheres contam suas histórias": 

 

-"Etnografando cuidados", pelos integrantes do FAGES/PPGAS/UFPE

 

- "Tom, Meu Guerreiro", por Andréa Avelino

 

- "Amor de um Pai", por Crislene Feitosa

 

- "Trilha da Vida", por Susana Lima

 

- "Por Pérola", por Marcione Rocha

 

- "Daniel, Meu Milagre", por Jaqueline Vieira

 

 

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