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"E você, filha, fale. Conte suas dificuldades."

 

Lucivânia Gosaves

Graduanda em Ciências Sociais, Universidade de Brasília

 

 

Gisele chega pontualmente às 11 horas da manhã para se encontrar com o grupo de apoio, horário que fica entre uma terapia e outra. Cris, coordenadora do grupo, e outras três mães participantes já haviam chegado. Gisele cumprimenta a todas e logo puxa uma cadeira para se sentar no círculo que está formado no meio da ampla sala usada para as reuniões. Para Gisele, o grupo de apoio era o lugar em que ela podia expor suas demandas em relação ao seu filho, exigindo verbalmente coisas práticas como marcação de exames, terapias, e também reclamações referentes a estas.

 

A coordenadora Cris começa o encontro:

 

Cris: Bom dia, queridas! Como vocês estão hoje?

Gisele - Ah, Cris! Não tem nada de bom hoje. Trocaram a terapeuta do meu filho, e ele gostava mais da outra. Já estava acostumado.

C- Gisele, ele vai se acostumar com essa também. Tenha mais um pouco de paciência.

G - Não, eu sei que com essa nova ele não está se dando bem. Eu quero que tu coloque ele de novo com a fisioterapeuta antiga!

C - Gisele, eu não posso mudá-lo de uma para outra assim. Você está dizendo que a fisioterapeuta atual não cuida bem de seu filho?

G - Não é isso. Só estou dizendo que com a outra ele não chorava, e que com essa ele não se adaptou. E você sabe que, se a criança fica chorando muito, as terapeutas logo mandam a criança para a sala de espera, para ver se passa o choro, para só então voltar para sala de terapia.

C - Eu vou tentar conseguir uma troca com outra criança, mas não crie muitas expectativas porque não é nada certo. Tente colaborar.

 

Virando-se para as outras mulheres que estavam na sala, enquanto Cris conversa com as outras integrantes do grupo, Gisele puxa assunto com uma mãe que observava toda a conversa discretamente.

 

Gisele - E você, filha, fale. Conte suas dificuldades. Aqui você pode se abrir.

Valentina - Bom, eu não venho sempre aqui. Na verdade, é a minha primeira vez.

G- Foi zika?

V - Ainda não sei.

G – Seu filho já está na terapia?

V- Está, mas não sei dizer qual. Os nomes ainda são novos pra mim. Só sei que preciso ver o problema de vista que ele tem, mas não sei como falar e nem com quem falar.

G - Mulher, você tem que falar! Se não falar, não consegue nada. Você não viu eu? Se eu não falasse nada, meu filho teria que continuar com aquela fisioterapeuta que ele não gosta, e ainda assim, não é certo que eu consiga a troca.

V - Eu não sou muito de falar…

G - Se você não falar pelo seu filho, quem vai falar? A gente precisa conseguir as coisas pra eles, não pode ser tímida.

V - É …

 

Outras conversas sobre vários assuntos surgem, e o tempo da reunião chega ao fim. Valentina continua discreta e em silêncio até o final. A coordenadora conduz o encerramento da reunião:

 

Cris:  Muito bem, mãezinhas! Foi ótimo tê-las aqui hoje, e espero que tenha sido proveitoso para todas também. Até semana que vem!

 

Todas se despedem e começam a esvaziar a sala.

 

***

O diálogo exposto nos ajuda a refletir sobre a maternidade militante que se apresenta, na maioria das vezes, como uma opção importante quando se precisa conquistar a atenção das autoridades. Diante da urgência que a síndrome congênita do vírus zika trouxe para a vida dessas mães, o ato de falar se tornou uma qualidade bastante valorizada e progressivamente aprimorada. Mas também, acabou por gerar desigualdades em relação a mães mais introspectivas como no caso de Valentina. Nestas circunstâncias, mães de micro precisam, com sua voz, provar sua cidadania perante ao Estado e seus representantes.

 

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