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Meu novo amigo

31.07.2019

Julia Lauriola
Graduanda em Antropologia, Universidade de Brasília
juluhelau@gmail.com

 

 

Hoje chegou um menino novo na nossa escola. As professoras disseram que ele é diferente. Ele tem micro... hm... “micro falia”? É algo assim que as professoras explicaram mais cedo. Só lembro que é uma palavra estranha e bem comprida. Ah, lembrei: microcefalia. Quando ele chegou, a turma toda fez silêncio. 


Tia Rosa disse: “Gente, esse aqui é o Martinho, novo coleguinha de vocês.” Martinho ficava numa cadeira de rodas. Tirando isso, eu não vi muita diferença nele. No intervalo, tia Rosa trouxe Martinho pra brincar no parquinho. Fui falar com ele. “Oi, meu nome é Pedro. Eu tenho 6 anos e você? Quer ser meu amigo?”. Ele sorriu e não disse nada. Acho que isso foi um sim. Mostrei meu carrinho novo pra ele. Ele gostou tanto que não queria mais me devolver. “Pode ficar com ele, Martinho”. Tia Rosa me deu um cheiro e disse: “Que gentil, Pedro! Estou orgulhosa de você!”. Tá, tia Rosa, agora para de me apertar, pensei. Martinho ria. Acho que ele também entendeu que ela exagera demais no carinho! 


“Tia Rosa, eu posso levar o Martinho no parquinho?” Perguntei. “Pedro, acho que ele não pode, é perigoso pra ele”, ela me respondeu. Sinceramente, eu não via nenhum perigo. Era só eu ajudar o Martinho a subir no balanço e balança-lo. O que podia dar errado nisso? Depois de um tempinho, ouvi uma tia chamar. “Vamos comer, crianças!”
Martinho também iria comer com a gente e eu pedi pra ajudar tia Rosa a empurrá-lo até a cantina. “Devagar, Pedro!”, ela exclamou. “Relaxa, tia Rosa, está tudo sob controle”, eu disse, “ZUUUMM!!!”.

 

Martinho e eu corríamos tão rápido quanto meu carrinho novo. Eu empurrava por trás e fazia impulso com os pés. A cadeira de rodas dele parecia até um patinete! Achei irado! Fomos os primeiros a chegar na cantina e ganhamos a corrida. “UHUL, bate aqui, Martinho!”. Ele estava muito contente, gargalhava. Vi que ele balançava muito mais as pernas e os pés do que as mãos. Tentei ficar em equilíbrio, com apenas um pé no chão e, no lugar de batermos as palmas das mãos, batemos as palmas dos pés. “Já sei! Esse vai ser o nosso toque. Primeiro esse pé e depois esse.” Expliquei e fizemos nosso toque várias vezes seguidas. Mesmo quase caindo, nosso toque era muito divertido.  


“Oba! hoje tem galinha com macaxeira! Que cara é essa, Martinho? Você não gosta?” Martinho fez uma careta. Acho que ele nunca tinha comido ou não gostava. “É muito gostoso! Experimenta!” disse. Tia Rosa foi aproximando devagarinho da boquinha dele um pedaço bem pequeno de frango. “E ai? Gostou?”, perguntei. Martinho parecia na dúvida, mas depois de um tempo deu um sorriso bem largo. “Acho que isso é um sim”, comentou tia Rosa.


Depois do lanche, nós fomos para sala de brinquedos. Lá tinha vários carrinhos, bonecos e jogos. Tia Rosa colocou Martinho em cima de um tapete e pediu para eu tomar conta dele enquanto ela ia ao banheiro do lado.  “Pode deixar!”, respondi. Fiquei me sentindo muito responsável. Ela confiava muito em mim e eu sabia que daria conta de cuidar bem de Martinho. Ele era muito legal e gostava de quase todos os brinquedos que eu mostrava pra ele, menos do pianinho que o Lucas quebrou.

 

Ah não, lá vem o Lucas e a Carol, pensei. “Cadê a tia Rosa?”, perguntou Carol. “Ela foi ao banheiro e já volta. Eu estou aqui brincando com o Martinho”, expliquei. “Esse menino é diferente. Tem a cabeça pequena”, disse o Lucas, que olhava fazia tempo para o Martinho. “E daí? Deixa ele, Lucas. E você que não tem nada na cabeça?”, eu disparei irritado. “Oi, Martinho, eu sou a Carol e esse é o Lucas”, disse a Carol se aproximando da cadeira de rodas. “Martinho, você tá aí brincando com o bobo do Pedro, vem brincar com a gente!”, exclamou o Lucas. “Já deu. Deixa a gente em paz”, eu falei.  “Também queremos brincar com ele ué”, disse a Carol. “É, Pedro, sai daí, deixa a gente brincar com o Martinho”, falou o outro. 


Carol e Lucas começaram a puxar Martinho. Dava pra ver que o Martinho começava a ficar nervoso. Ele balançava super rápido as pernas pra lá e pra cá. “Parem com isso, vocês vão machucar ele! Ele não é brinquedo não!”, eu gritei.  “Que bagunça é essa, minha gente? Minha nossa senhora! O que o Martinho tá fazendo no chão?!”, tia Rosa entrou correndo. “Foram o Lucas e a Carol!”, eu logo exclamei. 


Martinho bateu a cabeça e eu me assustei. Tia Rosa rapidamente o pegou no colo e levantou a blusa para ver se tinha machucado. Depois, ela abraçou o Martinho com força e o colocou sentadinho de volta na cadeira de rodas. Apesar de tudo, ele parecia bem, ele nem chorou! Como é valente esse Martinho! Tia Rosa conversou com a gente e disse que tínhamos que ter paciência para brincar com ele. “Ele não é um boneco. Vocês podem todos brincar com ele, mas com cuidado, sem essa agitação toda! Ele chegou hoje, já vão assustá-lo assim?”. 


Carol e Lucas pediram desculpas e tia Rosa deixou que todos nós ficássemos no tapete, brincando de lego. Eu ia colocando os pedacinhos coloridos no colo dele, para ele ver o que estávamos fazendo. Ele olhava para cada bloquinho, olhava para nós. Seus olhos piscavam muito. Nosso próximo toque serão piscadelas. 


Espero que amanhã ele volte pra escola. Meu novo amigo, Martinho. 
 

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