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“O psicológico é que fica pior”: saúde mental no contexto das “mães de micro”

14.07.2019

Ana Claudia Knihs de Camargo

Graduanda em Ciências Sociais, Universidade de Brasília
anaclaudiadecamargo@hotmail.com

 

 

Dizem que Jade é uma mulher nervosa. Ela nem sempre foi vista assim, na verdade. Com as durezas da vida, aprendeu a engrossar sua voz: percebeu que se fosse muito calma e não se fizesse presente, ninguém cederia o lugar para ela e sua filha mais nova, Maitê - nascida com a Síndrome Congênita do Zika Vírus. Todo dia elas têm que pegar alguns ônibus para chegar ao local das terapias de reabilitação e o trajeto é complexo: os hospitais são distantes de onde moram, os ônibus são escassos e pouco adaptados para necessidades especiais, os motoristas são estressados e muitos passageiros são preconceituosos e relutam em ceder o lugar - mesmo o assento preferencial sendo um direito garantido por lei. Ainda assim, esperam que Jade seja educada e evite conflitos.

 

O relógio de Jade não funciona igual ao nosso, não. Suas obrigações diárias desafiam as leis do tempo, não dá para fazer tudo em 24 horas. Preparar a comida dos filhos, do marido, a sua própria. Dar banho nas crianças, cuidar dos remédios da Maitê, se deslocar diariamente com sua filha até as fisioterapias, esperar ônibus, manter a casa limpa, administrar o dinheiro e as contas da casa. Na rua, já se acostumou em almoçar com uma mão só, segurando Maitê com a outra. Além de cuidar da família inteira, ainda precisa cuidar de si mesma: lá por onde mora, cara de cansada é motivo de fofoca. No dia seguinte, a rotina começa de novo, afinal, em sua agenda não existe final de semana ou feriado.

 

O marido de Jade sempre arruma motivo para brigar com ela - acha que fica muito na rua, que está sendo traído. Cansada dessa situação, certa vez pediu para que ele a acompanhasse nas sessões de terapias da filha. A queixa dele atenuou-se: “Vai você mesmo, eu não aguento isso não, cansa demais.” Ele também não fica sozinho com a filha, garantindo que “tem medo de ficar com ela e não saber socorrer” caso a criança precise. Essa família, porém, depende do Benefício de Prestação Continuada que Maitê recebe como pessoa com deficiência, e não do trabalho ou renda do pai da criança.

 

Dizem que Jade é uma mulher nervosa. Essa não é uma categoria desconhecida pela antropologia. Pelo contrário, nessa área, relatos de mulheres nervosas (atarefadas, angustiadas, exaustas) são muito comuns. No livro "O nervo cala, o nervo fala: a linguagem da doença", escrito pela médica e antropóloga Maria Lucia da Silveira e publicado em 2000, são apresentados relatos das “nervosas do Campeche”, antiga colônia de pescadores que agora se tornou um bairro conhecido em Florianópolis/SC. Em seu livro, o que mais chamou atenção foi a sensação de abandono que essas mulheres tinham. Muitas diziam à pesquisadora que familiares, médicos e psicólogos as viam como doentes e isso fazia com que se sentissem solitárias. Eram mulheres sobrecarregadas, mas que se consideravam sempre dispostas a ajudar os outros. Cada uma tinha uma história diferente, mas assim como Jade, compartilhavam do estigma de “mulher nervosa.” O livro de Maria Lucia da Silveira nos ajuda a pensar questões diversas sobre essas mulheres: a partir de que momento o estresse em viver diariamente uma situação desgastante deixa de ser normal e se torna um desequilíbrio patológico? Desde quando problemas com um contexto muito mais amplo podem ser explicados pelos nervos de um indivíduo? Falta de ônibus, preconceitos dos passageiros, violência marital devem ser resolvidos com medicamentos psicotrópicos?

 

No caso das “mães de micro”, mulheres que têm filhos nascidos com a Síndrome Congênita do Zika, há pessoas que conhecem a situação e se solidarizam com a causa. Fazem doações, tentam ajudá-las, buscam ouvir suas necessidades e cooperar, dentro do possível, para melhorar suas rotinas. No dia a dia, entretanto, as mães ainda são expostas a situações difíceis. Jade, por exemplo, tem em sua rotina todo um itinerário terapêutico que não é de fato para ela, mas para sua filha. É, ainda, provedora de seu núcleo familiar inteiro e acaba deixando o autocuidado em segundo plano. A responsabilidade pelo cuidado da criança é esperada somente dela. Assim como as “nervosas do Campeche”, Jade tem sob seus ombros preocupações diversas, além do peso físico e simbólico de uma dura rotina que afeta seu psicológico e causa sintomas que posteriormente são associados aos “nervos.” Quando perguntamos sobre como estava sua vida, ela respondeu com uma frase muito forte e ao mesmo sintética do que venho aqui discutindo: “O psicológico é que fica pior”.

 

Recentemente, Jade foi atendida por uma psiquiatra e em seu laudo constava um CID, um número que identifica sua doença. “Agora eu tenho um CID para chamar de meu!”, ela nos contou. Estava animada com a possibilidade de ter uma receita médica, um diagnóstico reconhecido pelos psiquiatras, e mais que isso, uma possibilidade de tornar todos os seus sentimentos legítimos. Certa vez, ela nos contou que seu maior sonho é “poder ir à praia com a creche”, referindo-se aos quatro filhos. Mais do que esse seu diagnóstico recente, com CID e uma cartela de pílulas, Jade é uma mulher completa, com sonhos, angústias e desejos. Seu relato não é isolado: também está presente nas vidas de muitas outras “mães de micro” - mulheres sobrecarregadas, muitas vezes sufocadas e pouco ouvidas, vistas simplesmente pela fácil alcunha de “nervosas” por pessoas que não conhecem, de fato, seus dias intensos.

 

 

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