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Carta à Uber: cuidados para levar crianças com deficiência

27.05.2019

Cara Uber,

 

Usualmente, utilizo os serviços da Uber em momentos específicos de meu deslocamento: quando estou em outra cidade ou com o horário apertado para chegar em determinado local. No geral, tive boas experiências com a empresa: motoristas solícitos, pontuais, bons preços. Como uma estudante de pós-graduação de 26 anos e sem filhos ou outras crianças próximas que comigo circulem pela cidade, não tenho do que reclamar. No entanto, desde a primeira vez que peguei um Uber acompanhada de crianças, problemas surgiram.     

 

Na primeira vez estava em Recife, em uma reunião realizada na Secretaria de Apoio à Pessoa com Deficiência (SEAD). Estava lá com mais duas colegas, ambas antropólogas e pesquisadoras. Juntas, participamos de um projeto de pesquisa que vem, desde 2016, acompanhando os impactos da epidemia do Zika Vírus sobre a vida e o cotidiano de crianças diagnosticadas com o que se convencionou chamar de síndrome congênita associada à infecção pelo vírus zika (SCAIVZ).  Como um dos programas oferecidos pela SEAD contempla as crianças nascidas com a síndrome, estávamos lá para encontrar algumas das mulheres que têm participado de nossas investigações. 

 

Era perto do meio dia quando a reunião acabou, e sobre as ruas da cidade fervia o trânsito intenso da capital pernambucana. Eu e minha colega de pesquisa tínhamos que atravessar para outro ponto da cidade e decidimos pedir um carro da Uber. Assim que finalizamos o pedido, o motorista que aceitou a viagem nos mandou uma mensagem perguntando se havia criança conosco. Com a resposta negativa, ele confirmou que nos buscaria.  

 

Quando entramos no carro, então, decidi sanar a minha curiosidade e perguntei o porquê do questionamento. Como resposta, obtive a explicação de que a fiscalização está mais rígida com relação aos assentos e equipamentos de retenção específicos para bebês e crianças. Como a multa é alta (R$293,47), os motoristas em geral estavam mais apreensivos com o deslocamento sem as cadeirinhas. Perguntei então se ele perdia muitas corridas por conta disso, ao que ele me respondeu afirmativamente que sim, perdia muitas corridas.

 

Ponderei se não seria interessante equipar o carro, transitar com a cadeirinha à disposição, e ele me respondeu que não existe apenas um tipo de cadeira, e, sim, três, que variam de acordo com a idade e o tamanho da criança. Não caberia tudo no carro, era como ele resolvia as questões que eu e minha colega íamos colocando. Ele nos deixou em nosso destino e seguimos com a agenda programada para a tarde.

 

Alguns dias depois veio a segunda experiência com crianças. Chamamos o carro, que nada nos perguntou antes de confirmar a corrida. Eu estava no hall de entrada de um prédio com duas crianças enquanto aguardávamos a mãe delas descer com seu outro filho, diagnosticado com a SCAIVZ. Quando o motorista chegou, fui até o carro com as duas crianças pedir para que ele esperasse mais alguns instantes que logo todos os passageiros estariam lá. Ele sorriu e acenou afirmativamente. Voltei ao saguão principal para que as crianças não ficassem muito próximas da rua, e, quando retornamos ao carro, o motorista havia desaparecido, dado no pé sem qualquer explicação. Lembrei que talvez ele não tivesse uma cadeirinha, quem dirá três. A mãe dos meninos tentou me acalmar dizendo para não me preocupar porque aquilo acontecia recorrentemente.

 

Trouxe esses dois relatos como uma forma de chamar atenção para o que enxergo como uma falta de adequação da empresa às necessidades de seus usuários. Procurei no site da Uber se havia alguma orientação com relação a bebês e crianças e tudo o que encontrei foi uma postagem que imputava ao usuário a responsabilidade de averiguar com o motorista se ele tinha uma cadeirinha, além de sugerir também que os responsáveis pela criança deveriam ter esses assentos eles mesmos, orientação muito pouco prática quando somada à lista de apetrechos que uma pessoa carrega consigo normalmente para cuidar de uma criança, como mamadeiras, fraldas, muda de roupa. No caso de crianças com deficiência ou “especiais”, a lista vai só aumentando: seringas, remédios, órteses, extensoras. Como exigir dessas mulheres que, para conseguirem usar táxi e uber pela cidade, ainda levem uma cadeirinha a tiracolo?

 

Entendo que a empresa não pode obrigar seus motoristas a equiparem seus carros com os assentos específicos, mas enxergo algumas mudanças que poderiam beneficiar e melhorar a experiência de crianças, bebês e seus cuidadores com a empresa. A primeira delas seria a de incluir no próprio aplicativo da Uber a opção de solicitar um carro com cadeirinha. Assim, o usuário não precisa fazer malabares nas mensagens privadas com os motoristas, como ocorrido no primeiro relato que trouxe, nem passar pelo constrangimento de ser recusado ou, pior ainda, deixado à deriva urbana, como no caso do segundo relato; e cabe também à empresa oferecer incentivos aos motoristas para que esse tipo de inclusão aconteça.

 

Uma outra sugestão seria a de atualizar as opções de cancelamento do aplicativo, adicionando uma alternativa que informe sobre cancelamentos decorrentes dessa falta de adaptação do carro ou da empresa às necessidades especiais do usuário. Essa seria uma atualização interessante não só por facilitar a comunicação do usuário com a empresa como também permitiria à própria Uber mapear essas demandas específicas a partir do aplicativo e tomar providências adequadas com relação a elas.

Bebês, crianças e seus cuidadores também são atores da vida social e, caso a Uber concorde com essa última afirmação, seria interessante então repensar como seus serviços têm sido fornecidos a essa parcela da população.

 

Agradeço a atenção e me coloco à disposição para mais informações,

 

Thais Valim (mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte)

thaismvalim@gmail.com

 

 

* Tentamos enviar esta carta diretamente à Uber, por e-mail, mensagem no Facebook ou até mesmo pelo aplicativo. Mas como não conseguimos nenhum retorno, optamos por publicar esta carta aberta e esperamos que o conteúdo chegue à empresa. 

 

* Esse é um dos textos produzidos no âmbito do projeto de pesquisa: “Zika e microcefalia: Um estudo antropológico sobre os impactos dos diagnósticos e prognósticos das malformações fetais no cotidiano de mulheres e suas famílias no estado de Pernambuco”. Os textos partem de histórias marcantes e intensas que nos foram relatadas por jovens mulheres da grande Recife que estão, no momento, vivendo a maternidade de crianças com a síndrome congênita do vírus Zika. Esse projeto de pesquisa vem acontecendo desde 2016, com visitas semestrais à capital pernambucana. É coordenado pela Professora Soraya Fleischer do Departamento de Antropologia/Universidade de Brasília. 

 

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