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Um dia de coleta de sangue

18.12.2018

Amanda Antunes
Antropóloga, pesquisadora Apoio Técnico/CNPq
amandaarso12@gmail.com

 

É um dia como qualquer outro para Sofia. Rosa, sua mãe, chega como uma típica mãe de micro: muitas sacolas num braço e a filha no outro. As duas estão na fila para mais uma das inúmeras coletas de sangue pelas quais a criança, afetada pela síndrome Síndrome Congênita do Zika Vírus (SCGV), passa constantemente. As últimas horas foram de jejum de comida e remédios para o exame.

 

Apesar de a condição da filha necessitar da passagem constante por médicos, terapeutas e outros tratamentos de saúde, o marido ainda implica com suas saídas frequentes que se acontecem, acima de tudo, para garantir que a pequena Sofia consiga sobreviver com alguma qualidade de vida. As dificuldades para chegar até o exame, são inúmeras: depois de um ataque preconceituoso sofrido em um coletivo, Rosa deixou de andar de ônibus. Seu local de residência é de difícil acesso, considerado zona de risco pelo aplicativo de transporte que ela usa pelo celular em seus deslocamentos.

 

Estar na fila para fazer a coleta de sangue é uma vitória para elas. Há três crianças na frente de Sofia, todas afetadas pela condição da SCGV. Quando chega a vez da menina, a enfermeira tenta uma, duas, três vezes furar a menina, mas não sai uma única gota de sangue. A grande quantidade de remédios das quais a menina precisa fazer uso resseca e atrofia suas veias. Após mais de uma hora de tentativas, finalmente se consegue a quantidade necessária para todos os exames.

 

O sacrifício da filha, consentido pela mãe, é necessário para que Rosa possa comprovar que a microcefalia de Sofia foi causada pelo vírus Zika. Só assim ela dará o primeiro passo para reivindicar uma série de direitos: acesso à van que leva as crianças para a fisioterapia, benefício de um salário mínimo concedido pelo estado e vale-transporte.

Apesar dos poucos resultados recebidos dos pesquisadores que se dedicaram a estudar o surto, ela insiste naquilo que considera ser o caminho certo. “Mais do que na justiça, acredito na ciência”, desabafa.

 

Publicado em na Revista Darcy/UnB: https://issuu.com/revistadarcy/docs/darcy_20_web

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