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“Eu abracei a causa dele”

18.12.2018

Soraya Fleischer
Professora do Departamento de Antropologia
Universidade de Brasília
soraya@unb.br

 

Era uma terça-feira de setembro, cedo da manhã. Estávamos, eu e Amanda Antunes, minha colega pesquisadora, visitando um grande hospital público onde se localizava um serviço de fonoaudiologia dedicado às “crianças de micro”, como dizem. Conheci uma das seis senhoras que ali estavam reunidas, conversando animadamente entre si, enquanto esperavam pelo atendimento.

 

Dona Cinara era uma senhora negra, do cabelo curto e levemente grisalho. Estava ao lado da cadeira de rodas de Nando, um menino de quase três anos, vestido de calça jeans, camisa polo e mocassins nos pés. “Esse menino é da terra do jeans, então, só anda de jeans. É jeans na segunda, na terça, na quarta; é calça, é bermuda, é camisa, é jaqueta. Ele é muito chique”, ela conta. Morava em Olinda, município contíguo à grande Recife.

 

Mas ela me surpreendeu, não era mãe nem avó do menino, como eu geralmente encontrava pelos serviços que percorria na cidade. Nando é filho da esposa de um sobrinho dela, não há sequer parentesco de sangue. Nando e seus pais moram em um município do interior. No início, levantavam às 2h da manhã para conseguirem chegar ao Recife. Estava muito difícil vir todo dia à capital, onde se concentram os serviços de reabilitação, exames e consultas de acompanhamento dessas crianças. Inventaram, então, outro arranjo. A mãe vem na segunda-feira, deixa Nando com Dona Cinara durante os dias úteis e retorna somente no final da sexta-feira para o interior. Foi assim que Dona Cinara havia decidido entrar nessa história: “Eu é que faço as terapias com ele desde o começo. Eu abracei a causa dele”.

 

Depois, ela me surpreendeu novamente, “Nunca tinha tido contato com uma criança com deficiência. Eu não tinha experiência nenhuma”. Nando usava uma sonda endogástrica para se alimentar; usava órteses para endireitar suas pernas. Naquela semana, tinha recebido um adesivo atrás da orelhinha esquerda para liberar doses paulatinas de Buscopan. E todos os dias da semana, vinha no carro da prefeitura de Olinda para fazer terapias, como ela me explicava, “de fono, fisio, oftalmo, hidro e TO” (terapia ocupacional).

Dona Cinara, cuidadora e acompanhante de Nando, por fim, tentou resumir sua atuação com a criança: "Ele é a minha capacitação, estou aprendendo muito com ele, sem dúvida”. E, assim, me surpreendeu mais uma vez, ao inverter o que comumente imaginamos para uma relação entre quem cuida e quem recebe cuidados. Ela vinha ganhando um profundo aprendizado com a convivência com Nando, era a criança que ensinava a adulta. E, para além de toda a agenda pelos hospitais recifenses, ela concluiu, “Ele é mais apegado comigo do que com a mãe”.

 

Cuidar, conviver, medicar e acompanhar eram práticas que, mais do que zelar pela saúde, intensificavam o laço, a relação, o afeto.

 

Publicado na Revista Campus Repórter/UnB

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