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Estimulação precoce: uma experiência em musicoterapia

Lucivânia Gosaves

Graduanda em Antropologia, Universidade de Brasília

 

Em novembro de 2015 a ciência nacional e internacional se encontrou diante de uma epidemia desconhecida, que logo depois teria sua principal consequência conhecida como a Síndrome Congênita do Vírus Zika. A transmissão vertical da mulher grávida e infectada pelo vírus para o feto mostrou o poder de alterar tanto seu desenvolvimento motor quanto neurológico devido às várias calcificações e redução da massa cerebral. De pouco em pouco, os estudos revelaram o que a síndrome poderia causar nos bebês e, como resposta às famílias e à população, o Ministério da Saúde normatizou protocolos de intervenção precoce.

A estimulação precoce busca ampliar as competências das crianças e reduzir os efeitos negativos da síndrome, tudo isso no momento tido como de maior plasticidade do sistema nervoso: até os três anos de idade. Por meio de estímulos visuais, motores e auditivos se espera que cada criança atinja um padrão de desenvolvimento nesse intervalo precioso de tempo.

Nas últimas duas visitas de campo feitas pela nossa equipe de antropólogas à Grande Recife/PE, um dos assuntos mais recorrentes na fala das “mães de micro”, como se autodenominam, foram as altas que os centros de reabilitação estavam dando a essas crianças. Os profissionais desses centros justificavam as altas das crianças por consideraram que essas não atingiram o padrão de evolução esperado pela instituição ou pelo número de faltas que as mães obtiveram por diversas circunstâncias que não eram levados em consideração pelos profissionais de saúde no momento de decretarem o desligamento.

Sara, mãe de Rute, mora em Surubim, um pequeno município do estado de Pernambuco e viaja até a Grande Recife duas ou três vezes por semana para a estimulação precoce de sua filha. Nos centros de reabilitação, Rute fazia fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e também participava de encontros grupais de musicoterapia, sessão que a criança mais gostava. Passando os dedinhos nas cordas do violão e prestando bastante atenção aos sons e batuques, Rute ia sendo estimulada como um todo.

Sara me contou que no início o grupo de musicoterapia era grande e bastante frequentado pelas “mães e crianças de micro”. Com o decorrer dos meses, as mães foram parando de ir e as sessões foram se esvaziando; cada semana o número diminuía mais até que sobraram só Sara e Rute. Por conta da falta de assiduidade das outras mães, a própria musicoterapeuta se esquecia que aquele dia da semana era dia de sessão. Sara se deslocava de um município a outro, chegava sempre no horário e nada da profissional aparecer. De tanto esperar, Sara deixou de ir. Perguntada por mim se a musicoterapeuta a procurou para tomar conhecimento de seu sumiço da sessão, Sara concluiu que a terapeuta deve ter esquecido dela e do grupo, já que há tempos ia se rareando.

Diante dessa realidade de altas e desligamentos vivida atualmente por essas “mães de micro”, parece que Sara a experienciou de uma forma diversa, uma espécie de alta reversa: não foram as pacientes que, por vários motivos, tinham desistido de continuar a terapia; mas a musicoterapeuta deixou de aparecer e dar notícias e, então, Sara e sua filha Rute não tiveram outra opção a não ser deixar de ir. Ademais, também podemos considerar um tipo de desligamento não formalizado, uma alta forçada e sem comunicação formal. A falta de assiduidade da profissional de musicoterapia (e talvez a interrupção do financiamento para a atividade bem como o pagamento do salário dessa profissional de saúde) pode estar revelando outras facetas que essa política de desligamento possui, uma faceta que perpassa a formalidade de um desligamento assinado em papel e que segue em direção a uma prática que, de uma forma ou de outra, continua dispensando dos tratamentos crianças com a Síndrome Congênita do Vírus Zika como Rute.

 

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