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“Essa Ester nasceu para ser milionária”

 

 

Lucivânia Gosaves

Graduanda em Ciências Sociais

Universidade de Brasília

 

“Eu passo dia e noite fazendo conta. Eu faço conta na minha cabeça o tempo todo”. Desde que Mariana recebeu a notícia de que sua filha, Ester, havia nascido com a síndrome congênita do vírus Zika, sua vida mudou completamente em vários sentidos. A responsabilidade de ter que cuidar de sua caçula, com todos os gastos que seus tratamentos demandam, somada à criação dos outros quatro filhos, tira suas noites de sono e arranca lágrimas de seus olhos quando, falando sobre sua situação, fica impossível sustentar uma pose dura frente a essa nova realidade.

Rearranjos de todos os tipos e principalmente os financeiros são feitos a todo tempo. Mariana pega um dinheiro emprestado com uma, consegue doação com outra, mas é a falta de estabilidade e a dependência que possui dessas ajudas que a assolam tanto. Ela insiste em dizer que essencialmente o que faz é pela filha e por seus direitos; não reivindica nada para si, mas tudo para a pequena Ester.

Quando Mariana é questionada sobre os itens fundamentais para sua filha e seus respectivos valores, ela logo dispara toda a lista de coisas e preços que sabe de cabeça: “Ester é milionária. Gasta muito, e tudo que ela gosta é caro. Só o sabril é R$ 295”. Sabril é o um dos medicamentos mais utilizados pelas crianças com essa síndrome. Da lista que apresentou, composta basicamente por leite e remédios, a conta fecha em pouco mais de R$ 2,000 mensais.

Ester atualmente é alimentada por meio de uma sonda endogástrica, o que acaba por limitar sua alimentação a um leite específico que custa em média R$57 a lata, sendo necessárias 22 latas por mês. O desespero de Mariana eclode quando observa seu armário e se dá conta de que as provisões para sustentar sua filha já não chegarão até o fim daquela semana. Além disso, durante seu desabafo, relata que Ester precisa trocar a sonda, tendo em vista que o aparelho atual está vazando, contudo, um equipamento novo custa em média R$900. Diante dos gastos mensais, parece que a troca dessa sonda precisará ser adiada para o futuro.

As vidas das “mães de micro”, como elas se chamam, se modificaram completamente desde que seus nenéns nasceram. Se antes Mariana ia à praia sempre que tinha vontade, agora já não pode lá passear mesmo que a saudade de sua vida anterior a emocione quando fala. Nesse caso, o motivo de não ir à praia há mais de 1 ano não é especificamente Ester, mas seus outros quatro filhos. Mariana se ressente de não conseguir lhes oferecer um cachorro-quente sequer, se forem à praia.

Mariana é referida por pessoas próximas como uma mulher que envelheceu depois da chegada de Ester, uma mulher “acabada” que já não é mais a mesma de dois anos atrás. Sua vontade, quando todo o desassossego surge, é de passar a cuidar de Ester em casa e parar de “correr, correr, correr” atrás de serviços, remédios e leite em pó dentro de mais de cinco ônibus ao dia. Mas na hora das crises convulsivas de sua filha, correr é a única opção que se mostra, ainda que o resultado positivo dessa corrida não dependa apenas dela, mas também do Estado, das amigas, das ONGs e de doações.

 

 

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