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Micro-cirandas: As circulações de mães de bebês nascidos com a Síndrome Congênita do Zika Vírus

30.01.2018

André Justino

Doutorando em Antropologia, Universidade de Brasília

 

“Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, vamos dar a meia-volta, volta e meia vamos dar...” Assim parece cantarolar, de forma irônica e até cruel, a Síndrome Congênita do Zika Vírus, conclamando a danças as pessoas por ela afetadas. As mães dos bebês nascidos com a síndrome precisam percorrer os mais variados trajetos buscando terapias, direitos e benefícios para suas crianças, cujos corpos são marcados pelos sintomas ainda em descoberta desde o início do surto, em 2015. Tatiana é uma das muitas mães nesta situação e a acompanhamos em uns dos momentos em que ela precisou circular pela cidade para cumprir sua rotina.

Começamos quando Luana, filha adolescente de Tatiana, aparece sorrateira na sala e avisa que está na hora. A mãe se levanta e, em poucos minutos, estamos prontos para partir. Bolsa, bota, meia. O bebê Miguel, a irmã Luana e a mãe Tatiana. Juntas, descemos a rua de paralelepípedos rumo à BR, onde pegaremos o ônibus para o compromisso da tarde. Com a mão no bolso, faço uma figa, esperando que essa viagem ocorra sem problemas. Tatiana acena quando vê o ônibus, é um motorista conhecido, alívio, poderemos ir até o terminal e voltar sem precisar pagar uma nova passagem!

Dia sim, dia não, Tatiana percorre diversos trajetos com seu filho, o pequeno Miguel, no colo, alternando essa rotina com a do seu trabalho. O bebê nascido com a Síndrome Congênita do Zika Vírus, assim como outros milhares, demanda diversos cuidados e terapias específicas. O atendimento ocorre em algumas instituições espalhadas pela capital recifense, como o Centro de Reabilitação e Valorização da Criança (CERVAC), o Hospital Altino Ventura, a AACD, o Hospital das Clínicas, o IMIP, entre outros. Tatiana, às vezes, conta com alguma carona, ou pede um uber, que divide com outras mães na mesma situação, mas, no geral, é de ônibus mesmo que ela percorre os trajetos junto ao filho e Luana, que a auxilia. O ronco do motor dita o ritmo da ciranda

A circulação pela cidade é complicada. Imaginem empurrar um carrinho de bebê por ruas estreitas e íngremes, disputando espaços com carros, ou ainda lutando com os paralelepípedos que dificultam a fluidez do caminhar, isso quando longas escadarias não se interpõem no caminho. O jeito é carregar o bebê nos braços e torcer para que tudo dê certo.

Tatiana nos conta que, às vezes, não dá certo. Ela diz que alguns motoristas dos vários ônibus que compõem seu itinerário se recusam a entrar na dança. Não abrir a porta, não parar no ponto solicitado, não esperar que a mãe se acomode para recolocar o veículo em movimento, duvidar de que aquela mãe que entrou por trás para acomodar as bolsas ou o carrinho vai voltar pela porta da frente para pagar a passagem são alguns dos casos que ouvimos quando o assunto é o transporte coletivo na cidade.

 Bianca, outra das mães que acompanhamos, conta de quando foi literalmente arrastada de um ponto a outro por um motorista, que não esperou que ela subisse com o carrinho de bebê pela porta de acesso especial do veículo. A mãe de micro conta que obteve a solidariedade dos outros passageiros nesse caso, que eles se levantaram em defesa e compraram a briga. Mas que nem sempre é assim.           

Além dos obstáculos físicos, as mães estão em contato com preconceitos, discriminações, curiosidades indiscretas e ofensas direcionadas a seus bebês o tempo inteiro. Circular pela cidade em busca da boa-vida de suas crianças é também circular por um mar de ignorâncias, maldades e negativas: “às vezes o ônibus pode estar cheio quanto for, ninguém senta do meu lado se eu estou com Yuri no colo”, afirma Bianca.

Voltando à Tatiana. No caminho até nosso compromisso, faço cálculos rápidos de cabeça, já estamos no nosso segundo ônibus do trajeto, e percebo que custa uma pequena fortuna fazer todos os trajetos pagando passagens, ainda mais em um contexto de grande vulnerabilidade socioeconômica. Pergunto então como ela faz para manter os gastos sob controle. Ela logo responde que possui o passe livre oferecido pela prefeitura que dá direito à gratuidade nas viagens para ela e uma acompanhante, desde que respeitado um breve intervalo entre as conduções. Comento que é ótimo que exista pelo menos alguma facilidade nessa circulação, mas ela logo rebate, dizendo que algumas mães ficaram meses à espera de liberarem o benefício, arcando com mais este ônus.

Duas conduções depois, chegamos ao destino daquela tarde. Tatiana foi buscar doações em uma das ONGs que ajudam as mães de micro. A volta para casa promete ser mais trabalhosa, já que ela, Luana e Miguel vão voltar para casa com bolsas cheias de fraldas, leites em pó e medicamentos, em pleno horário de pico. Se tiver sorte, consegue uma mãe amiga para dividir um táxi, ou quem sabe uma carona?! É preciso tenacidade para continuar nessa ciranda convocada pela síndrome.

“Por isso, dona Rosa, entre dentro dessa roda, diga um verso bem bonito, diga adeus e vá-se embora”... pelo menos até o dia seguinte, quando a ciranda convida a mãe a dançar de novo... e de novo... e de novo.

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