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Mídia e Vírus Zika

Lucivânia Gosaves

Graduanda em Ciências Sociais, Universidade de Brasília

 

Em novembro de 2015, foi confirmada pelo Ministério da Saúde a associação entre o Zika vírus e os casos de bebês nascidos com microcefalia. Sete meses antes, em abril desse mesmo ano, o vírus havia sido considerado uma doença desconhecida, muitas vezes diagnosticada como uma “dengue fraca”, que  se curava em poucos dias. O noticiário nacional não falava em outra coisa que não sobre os corpos marcados por manchas vermelhas de pessoas residentes principalmente no Nordeste brasileiro.

Nos dois momentos, antes e depois da confirmação da correlação do Zika com os casos de microcefalia, a imprensa brasileira se colocou perto dessas pessoas, em sua maioria mulheres, para captar suas dificuldades e suas vivências diante da situação. No entanto, os jornalistas mostraram disposição somente em noticiar o auge do momento.  A especulação sobre os casos feita pela televisão e por outras mídias acabou por, de alguma forma, fazer histórias como as de Ana, que apresento a seguir, parecerem ser verdadeiras.

 Dois anos após o marco inicial da epidemia, o que vemos são esses meios de comunicação saindo completamente de cena. Aquela curiosidade que recaía sobre as mulheres e seus bebês diminuiu enormemente, entretanto, os problemas do dia-a-dia continuam a existir. As câmeras e microfones da mídia nacional e internacional passaram a mirar outras situações que se tornaram mais “interessantes”.

 A participação dos jornalistas se dá atualmente de forma bem pontual, quando buscam transmitir temáticas que de alguma forma polemizam e  atraem audiência para as matérias. Por exemplo, sobre a atual vida das mulheres e bebês após o surto, trazem para a pauta o sensacionalismo e equivocadas conclusões.

As “mães de micro”, como assim se intitulam, são mulheres que foram acostumadas com o assédio da imprensa e de pessoas outras que, pelos mais variados motivos, se interessaram pela deficiência de seus filhos. Contudo, aqui podemos descrever a categorização que uma delas, Ana, apresentou sobre dois tipos de público interessado na epidemia:  pessoas “curiosas” e pessoas “críticas”. Segundo ela, as pessoas curiosas desejam aprender e saber mais sobre a deficiência de seu filho. Ela julga esta abordagem como positiva em termos políticos, justamente porque, assim, tem a chance de divulgar informações, esclarecer o público em geral e  buscar respeito para o seu filho. Já os “críticos”, segundo Ana, nada querem acrescentar e/ou colaborar. Ao contrário, atrapalham e causam ainda mais danos.

Ana deu um exemplo. Em 2016, um noticiário da rede SBT de Pernambuco fez uma reportagem sobre os pais que tinham abandonado a esposa e o filho por conta da microcefalia. Ana aceitou ser entrevistada, mas deixou claro a eles que seu ex-marido não os havia abandonado e que eram outros os motivos da separação. Contudo, para sua surpresa, Ana foi incluída na reportagem como um exemplo de abandono e isso gerou um enorme conflito entre ela e seu ex-marido. Quando ele assistiu ao programa de amplo alcance televisivo, se enfureceu com a distorção, ameaçou cortar a pensão alimentícia e prometeu não visitar mais os filhos. Ele se sentiu ofendido e atingido ao ser assim representado na reportagem.

Além de seu filho portador da síndrome congênita do Zika, Ana tem ainda mais outros dois filhos que vivem com ela. Em seu relato, fica claro como a mídia prestou um  desserviço em relação à sua imagem e à vida de sua família. A transmissão de fatos inverídicos foi prejudicial em diversos aspectos: Ana teve que repactuar a confiança com o ex-marido, teve que renegociar a pensão que dele recebia e as crianças ficaram sem ver seu pai por algumas semanas enquanto o caso não se resolvia.

Com grande legitimidade dentro da nossa sociedade, a mídia tem o poder de comunicar narrativas de modo pervasivo. Casos como o de Ana reafirmam que os veículos de comunicação devem se redirecionar para a construção de matérias responsáveis, buscando sempre o respeito às opiniões compartilhadas pelos entrevistados e a inclusão das pessoas com deficiência, comumente marginalizadas pela população e pelo Estado. Reportagens como essa do SBT não só comunicam inverdades, mas paradoxalmente produzem aquilo que desejavam denunciar, como esse caso de  abandono paterno fabricado.

 

 

 

 

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